Empresas do setor apostam em centros de dados para ampliar
Empresas do setor apostam em centros de dados para ampliar o consumo de eletricidade renovável e enfrentar restrições que obrigam usinas a reduzir a produção Laurel and Michael Evans / Unsplash

As empresas de energia eólica no Brasil estão buscando ampliar os contratos com centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, para aumentar a demanda por eletricidade e reduzir os impactos dos cortes de geração renovável. A estratégia ganha força em meio à expansão da infraestrutura digital e à necessidade de encontrar soluções para aproveitar melhor a energia produzida por parques eólicos e solares.

O tema voltou ao centro das discussões do setor energético nesta terça-feira (27), após representantes da indústria apontarem que a atração de grandes consumidores de eletricidade pode ajudar a recuperar investimentos e fortalecer a cadeia de energias renováveis. A expansão dos data centers, impulsionada pelo uso de inteligência artificial e serviços de computação em nuvem, aparece como uma oportunidade para aproximar a oferta de energia limpa da demanda industrial.

Um dos principais desafios enfrentados pelos geradores é o chamado *curtailment*, termo utilizado para designar a redução ou interrupção da geração de uma usina por determinação do operador do sistema elétrico. Os cortes podem ocorrer quando a rede de transmissão não consegue transportar toda a energia disponível ou quando a oferta supera a demanda em determinados períodos.

O problema tem afetado a rentabilidade de projetos renováveis e levado empresas a reavaliar novos investimentos. Dados divulgados em setembro pela consultoria Volt Robotics, com base em informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), apontaram que, entre janeiro e agosto de 2026, houve 51 dias em que os cortes de geração eólica e solar superaram 60% da produção potencial considerada no levantamento.

Nesse cenário, os data centers são vistos como possíveis consumidores de grande porte, capazes de estabelecer contratos de fornecimento de energia de longo prazo. Essas instalações armazenam e processam grandes volumes de informações e exigem eletricidade contínua para manter servidores, sistemas de refrigeração e equipamentos de rede em funcionamento.

A expansão desse mercado já atrai investimentos relevantes. Em maio de 2026, a plataforma Omnia, ligada à Patria Investimentos, e a geradora Casa dos Ventos firmaram um acordo de fornecimento de energia por 20 anos para abastecer um data center da ByteDance, empresa controladora do TikTok, no complexo portuário do Pecém, no Ceará. O contrato foi estimado em US$ 2 bilhões e prevê eletricidade proveniente de parques eólicos no Nordeste.

O projeto ilustra como a demanda digital pode criar oportunidades comerciais para empresas de energia renovável. Ao estabelecer contratos de longo prazo, os geradores podem obter maior previsibilidade de receitas, enquanto os operadores de data centers buscam garantir o fornecimento necessário para suas instalações.

Infraestrutura ainda é um obstáculo

Apesar das oportunidades, especialistas ressaltam que a instalação de grandes consumidores precisa acompanhar a capacidade da rede elétrica. Parte significativa da geração eólica está concentrada no Nordeste, enquanto muitos projetos de data centers são planejados para regiões próximas aos grandes centros econômicos do Sudeste.

Essa diferença geográfica exige investimentos em linhas de transmissão, planejamento da expansão elétrica e coordenação entre produtores e consumidores. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) acompanha a evolução da demanda dos centros de dados justamente porque essas instalações podem exigir grandes volumes de potência e influenciar o planejamento do sistema.

Outra possibilidade é estimular o consumo flexível, permitindo que determinadas atividades aumentem a utilização de energia nos períodos de maior oferta renovável. Essa alternativa, entretanto, precisa respeitar a necessidade de funcionamento contínuo de muitos data centers e os requisitos de segurança dos serviços digitais.

O governo também vem adotando medidas para lidar com os efeitos financeiros dos cortes de geração. Em outubro, o Ministério de Minas e Energia avançou na implementação de um mecanismo de compensação para determinados cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025. A iniciativa contempla empreendimentos que atendam aos critérios estabelecidos na regulamentação, mas não elimina as restrições que continuam ocorrendo. Ministério de Minas e Energia

Para o setor eólico, portanto, atrair data centers representa uma oportunidade de diversificar a demanda e ampliar os contratos de fornecimento. O resultado dependerá da capacidade de integrar os novos consumidores à rede, da competitividade dos preços e da definição de regras que ofereçam segurança aos investimentos.