Acordo tecnológico entre Washington e Assunção coloca energia de Itaipu no centro das atenções brasileiras
Parceria entre a Crusoe e a Araico prevê infraestrutura de computação no Paraguai a partir de 2027, mas ainda não detalha investimento nem volume de energia contratado.

O governo brasileiro está analisando um acordo anunciado pelos Estados Unidos e pelo Paraguai para utilizar energia da usina hidrelétrica de Itaipu no abastecimento de um centro de processamento de dados voltado à inteligência artificial (IA). A iniciativa envolve a empresa norte-americana Crusoe e a companhia paraguaia Araico e pode ter implicações para as relações energéticas entre os dois países sul-americanos.
A Embaixada do Brasil em Assunção está examinando os documentos relacionados à parceria antes de uma manifestação oficial do governo brasileiro. A avaliação ocorre porque Itaipu é uma usina binacional, administrada conjuntamente por Brasil e Paraguai, com divisão igualitária da energia produzida.
O acordo foi anunciado em 21 de outubro pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, durante uma visita do vice-secretário de Estado norte-americano, Christopher Landau, ao Paraguai. Segundo o comunicado, a Crusoe e a Araico pretendem construir uma infraestrutura de computação de alto desempenho alimentada pela eletricidade gerada pela hidrelétrica.
A primeira fase do empreendimento está prevista para entrar em operação em meados de 2027. A estrutura deverá fornecer serviços de computação em nuvem para clientes dos Estados Unidos e da América Latina, atendendo à crescente demanda por capacidade computacional necessária ao desenvolvimento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial.
O anúncio também apresenta o projeto como um possível dos maiores investimentos privados da história do Paraguai. Entretanto, o comunicado norte-americano não divulgou o valor total do investimento nem detalhou a quantidade de energia que será contratada. O Brasil tampouco foi mencionado no documento, apesar de participar da administração da usina.
A questão energética é particularmente relevante porque o Paraguai historicamente não consumia toda a parcela de eletricidade a que tinha direito. O excedente era destinado ao Brasil, conforme as regras estabelecidas pelo Tratado de Itaipu, assinado em 1973.
As condições para a comercialização dessa energia passaram por negociações entre os dois países. Em 2025, um entendimento bilateral abriu caminho para que o Paraguai pudesse comercializar seu excedente com outros compradores, modificando a dinâmica que tradicionalmente vinculava a venda dessa eletricidade ao mercado brasileiro.
Nesse contexto, a possibilidade de destinar parte da energia a um empreendimento tecnológico representa uma nova alternativa comercial para o governo paraguaio. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre a disponibilidade futura de eletricidade e os termos econômicos dos acordos entre os dois países.
O projeto também evidencia a importância estratégica da energia para a expansão mundial da inteligência artificial. Centros de dados exigem fornecimento contínuo de eletricidade para alimentar servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de refrigeração. Países com geração hidrelétrica abundante e renovável podem, portanto, atrair investimentos de empresas que buscam reduzir custos energéticos e ampliar sua capacidade de processamento.
Ainda não há confirmação de que o acordo provocará redução imediata no fornecimento de energia destinado ao Brasil. Os efeitos dependerão das condições contratuais, da demanda paraguaia, da disponibilidade de geração e das regras aplicáveis à comercialização da eletricidade.
A análise diplomática brasileira deverá ajudar a esclarecer as implicações do entendimento e seus possíveis reflexos nas negociações bilaterais. Enquanto isso, a parceria entre Washington e Assunção reforça a disputa internacional por energia e infraestrutura necessárias ao avanço da inteligência artificial.

