Banco Central
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Banco Central (BC) passou a divulgar um novo conjunto de indicadores para acompanhar, de forma mensal, os reajustes salariais negociados em convenções coletivas no Brasil. A iniciativa busca oferecer uma visão mais detalhada da evolução dos salários e ajudar a avaliar a relação entre as condições do mercado de trabalho, a inflação e o comportamento da remuneração dos trabalhadores.

Os dados são construídos a partir das informações registradas no Sistema de Negociações Coletivas de Trabalho (Mediador), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A nova série reúne informações sobre os reajustes nominais e reais e indica a parcela das negociações que resultou em aumentos acima, abaixo ou em linha com a inflação.

O reajuste nominal corresponde ao aumento do salário em valores correntes, enquanto o reajuste real considera a inflação do período. Na prática, quando o aumento salarial supera a inflação, o trabalhador obtém ganho real e, consequentemente, há aumento do poder de compra.

A análise do Banco Central aponta que os ganhos reais aparecem com maior frequência em momentos de mercado de trabalho aquecido, especialmente quando a taxa de desocupação está baixa. Esse comportamento foi observado entre 2012 e 2014 e voltou a ganhar força a partir de 2023, período em que aumentou a proporção de convenções coletivas com reajustes superiores à inflação.

A relação entre salários e inflação também aparece como um dos principais elementos das negociações. Segundo o levantamento, os reajustes pactuados apresentam forte associação com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), utilizado como uma das principais referências nas negociações entre trabalhadores e empregadores. A legislação não determina que as perdas inflacionárias sejam necessariamente recompostas, mas a inflação acumulada costuma exercer influência significativa sobre os acordos coletivos.

Os indicadores também permitem observar diferentes momentos da economia brasileira. Em períodos de maior disponibilidade de vagas e menor desemprego, os trabalhadores tendem a ter maior poder de negociação, enquanto as empresas enfrentam maior competição por mão de obra. Esse cenário pode favorecer acordos com reajustes acima da inflação.

O Banco Central já utilizava informações de convenções coletivas para acompanhar a dinâmica salarial. Em análises anteriores, a instituição havia identificado que os reajustes negociados apresentavam relação com a inflação passada e que, em 2024, mais de 80% das negociações consideradas até agosto haviam resultado em aumentos superiores à inflação.

Com a nova divulgação mensal, os dados passam a integrar de maneira mais sistemática o acompanhamento das condições do mercado de trabalho. As informações abrangem convenções coletivas de diferentes regiões e setores, incluindo agropecuária, indústria, construção, comércio e serviços, e estarão disponíveis no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central.

A ferramenta poderá contribuir tanto para o acompanhamento da renda dos trabalhadores quanto para a análise da política monetária, já que a evolução dos salários é um dos fatores considerados na avaliação das pressões inflacionárias.