Saneamento amplia investimentos para reduzir perdas e enfrentar impactos do clima
Setor aposta em infraestrutura mais resistente, monitoramento climático e tecnologia para reduzir desperdícios e ampliar a segurança hídrica até 2033.

O setor de saneamento brasileiro busca acelerar medidas para tornar redes de abastecimento e sistemas de distribuição mais preparados para eventos climáticos extremos. A preocupação ganhou força diante da ocorrência de fenômenos como o El Niño, que pode alterar o regime de chuvas, elevar temperaturas e aumentar a pressão sobre os recursos hídricos em diferentes regiões do país.
A estratégia envolve investimentos em infraestrutura, tecnologia, monitoramento e materiais mais resistentes. O objetivo é reduzir falhas, diminuir a necessidade de intervenções e manutenção e, principalmente, evitar que a água já captada e tratada seja desperdiçada antes de chegar aos consumidores.
A discussão ocorre em um momento em que o Brasil enfrenta o desafio de ampliar o acesso aos serviços de saneamento. O marco legal do setor estabelece como metas, até 2033, atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Para especialistas e empresas, a adaptação climática precisa avançar paralelamente à expansão desses serviços.
Um dos principais problemas está nas perdas de água. Dados citados pelo setor apontam que cerca de 40% da água tratada no país é perdida antes de chegar às torneiras. Vazamentos, falhas de medição e consumos não autorizados estão entre as causas. A redução dessas perdas é considerada uma das medidas mais imediatas para aumentar a eficiência do sistema, especialmente em períodos de estiagem.
A Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon) defende que a meta de reduzir as perdas para 25% até 2033 representa um avanço importante em eficiência e sustentabilidade. Para alcançar esse resultado, são necessários investimentos em modernização das redes, equipamentos de medição e ferramentas tecnológicas capazes de identificar vazamentos e acompanhar o funcionamento dos sistemas.
O cenário climático aumenta a urgência dessas medidas. Segundo o monitoramento oficial, o El Niño de 2026-2027 apresenta alta probabilidade de permanecer até o início de 2027 e pode atingir intensidade muito forte. As previsões indicam possibilidade de chuvas acima da média no Sul e abaixo da média em áreas do centro-norte do país, acompanhadas por temperaturas elevadas.
Diante desse cenário, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) elaborou um plano específico para preparar os sistemas de recursos hídricos para os possíveis impactos do fenômeno. O documento prevê ações estratégicas, operacionais e regulatórias, além do acompanhamento regionalizado das condições dos principais sistemas hídricos brasileiros.
A indústria de materiais para saneamento também defende o uso de produtos mais duráveis e adequados às condições locais. Redes estanques e resistentes podem aumentar a vida útil da infraestrutura e reduzir substituições, intervenções e consumo de recursos ao longo dos anos.
Além da escassez hídrica, o setor precisa considerar enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos. A avaliação de riscos e a elaboração de planos de contingência passaram a ganhar espaço no planejamento das empresas, enquanto contratos de concessão mais recentes começam a incorporar mecanismos relacionados à segurança e à adaptação climática.
A expectativa é que a combinação entre infraestrutura mais resistente, redução de perdas, monitoramento climático e planejamento preventivo permita ao setor enfrentar condições ambientais mais instáveis sem comprometer a expansão dos serviços. Para o saneamento, a resiliência climática deixa de ser apenas uma medida de emergência e passa a fazer parte do planejamento de longo prazo para garantir água e esgoto à população.

