igreja
Estudo sobre a religiosidade de pessoas em situação de rua Luis ROBAYO / AFP via Getty Images

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) analisou a relação entre religiosidade, situação de rua e uso de drogas no Brasil e em Portugal. O estudo, baseado em entrevistas com 40 pessoas, identificou que a dimensão religiosa permaneceu presente durante o período de consumo de substâncias e, em alguns casos, chegou a se intensificar.

Divulgada pelo Jornal da USP em 5 de outubro, a pesquisa faz parte do doutorado da psicóloga Camila Chagas, do Instituto de Psicologia da USP. O objetivo foi compreender não apenas a trajetória de uso de drogas dos participantes, mas também de que maneira a religiosidade esteve relacionada a essas experiências.

Religiosidade Não Significa Ausência De Vulnerabilidade

Os resultados questionam a interpretação popular de que pessoas com dependência de drogas viveriam uma espécie de "falta de Deus". Segundo o Jornal da USP, a religiosidade esteve presente na trajetória dos entrevistados e, em determinadas situações, funcionou como uma forma de amparo e sensação de segurança diante das dificuldades.

A pesquisadora utilizou o conceito de "proteção subjetiva" para descrever essa percepção de estar protegido por uma divindade diante das adversidades e consequências do uso de substâncias. Entretanto, o estudo também identificou uma possível relação entre essa crença e a exposição a comportamentos de risco. Alguns participantes relataram acreditar que estariam protegidos de doenças ou de uma overdose, hipótese que, segundo a reportagem, ainda precisa ser investigada em pesquisas futuras.

As entrevistas também revelaram diferentes formas de relação com instituições religiosas. Enquanto participantes brasileiros relataram contato com diferentes tradições e rituais, inclusive em comunidades terapêuticas, alguns portugueses disseram sentir desconforto ou inadequação em igrejas e cultos por serem consumidores de drogas.

Diferenças Entre Brasil E Portugal

A pesquisa comparou os dois países por suas características religiosas e pelas diferenças nas políticas relacionadas às drogas. Entre os participantes brasileiros, a maioria se identificava como evangélica, enquanto os portugueses eram predominantemente católicos. Em Portugal, 40% dos entrevistados declararam não ter religião.

O estudo também observou diferenças nos modelos de tratamento. Os brasileiros entrevistados estavam em uma comunidade terapêutica orientada à abstinência, enquanto os portugueses participavam de um modelo baseado na redução de danos.

Para os pesquisadores, os resultados contribuem para questionar generalizações sobre pessoas em situação de rua e com dependência de drogas. A pesquisa indica que a religiosidade pode assumir diferentes significados nessas trajetórias e que sua relação com o consumo de substâncias é mais complexa do que a simples presença ou ausência de fé.

igreja
Estudo sobre a religiosidade de pessoas em situação de rua Luis ROBAYO / AFP via Getty Images