Cerrado Perdeu 13,9 Milhões De Hectares Perto De Rios
Levantamento do MapBiomas mostra que áreas próximas aos cursos d'água foram fortemente afetadas, com maiores perdas nas bacias do Alto Tocantins e do Araguaia.

A perda de vegetação nativa no Cerrado brasileiro também afeta áreas próximas aos rios. Desde 1985, o bioma perdeu 13,9 milhões de hectares de cobertura vegetal nativa situados a até 500 metros de cursos d'água. O número representa mais de um quarto de toda a vegetação nativa perdida no Cerrado ao longo do período, segundo levantamento divulgado pelo MapBiomas.
Os dados destacam a dimensão das mudanças na paisagem do segundo maior bioma brasileiro e chamam a atenção para a transformação de áreas próximas à rede hidrográfica. Essas regiões são importantes para a conservação ambiental, pois a vegetação que acompanha os rios integra os ecossistemas associados aos cursos d'água.
O levantamento considera as mudanças na cobertura e no uso da terra desde 1985. Ao analisar a vegetação nativa em diferentes distâncias dos rios, o estudo permite observar como a perda de cobertura vegetal também atingiu áreas próximas aos recursos hídricos.
Vegetação Próxima Aos Rios No Centro Do Levantamento
A faixa de até 500 metros dos rios concentra uma parcela expressiva da vegetação nativa perdida no Cerrado. O total de 13,9 milhões de hectares evidencia que a transformação do bioma não se restringiu a áreas distantes dos cursos d'água.
A vegetação próxima aos rios desempenha funções ambientais relevantes, incluindo a proteção do solo e das margens, além de contribuir para a manutenção dos habitats utilizados por diferentes espécies. A retirada dessa cobertura pode comprometer o equilíbrio dos ecossistemas locais e aumentar a vulnerabilidade dessas áreas à degradação.
Por isso, acompanhar as mudanças na vegetação ao redor dos rios é importante para compreender a dimensão territorial da perda ambiental no Cerrado. Os dados do MapBiomas oferecem uma perspectiva histórica sobre a transformação dessas áreas ao longo de quatro décadas.
Perda Se Concentra Em Grandes Bacias Hidrográficas
O levantamento também identificou diferenças entre as bacias hidrográficas. As regiões do Alto Tocantins e do Araguaia registraram as maiores perdas de vegetação nativa nas áreas próximas aos rios. No Alto Tocantins, a cobertura vegetal nessa faixa diminuiu de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares. No Araguaia, passou de 7,8 milhões para 5,1 milhões de hectares.
Somadas, as duas bacias responderam por aproximadamente 5,7 milhões de hectares de redução, o equivalente a 41% da perda de vegetação nativa registrada a até 500 metros dos cursos d'água do Cerrado entre 1985 e 2025.
A análise também aponta mudanças importantes na faixa de até 30 metros dos rios, onde a área de vegetação nativa diminuiu 13,9% durante o período estudado. Em 2025, pastagens e áreas agrícolas ocupavam conjuntamente 18,2% dessa faixa.
Impactos Sobre A Água E A Conservação
Segundo Bárbara Costa, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e integrante da equipe do Cerrado do MapBiomas, a vegetação próxima aos rios ajuda a proteger o solo, reduzir a erosão e impedir que sedimentos cheguem aos cursos d'água. Sua redução pode favorecer o assoreamento e prejudicar a qualidade e a disponibilidade de água, além de aumentar a vulnerabilidade a secas e chuvas intensas.
Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e integrante da mesma equipe, destaca que o monitoramento dessas áreas contribui para avaliar as condições das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e das matas ciliares. Os dados também podem orientar políticas de conservação dos recursos hídricos e a criação de corredores ecológicos nas bacias hidrográficas.
No conjunto do bioma, a perda líquida de vegetação nativa chegou a 51,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025, uma redução de 34%. Em 2025, a vegetação nativa ainda cobria 49,6% do Cerrado, segundo a Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas.
Os resultados reforçam a importância de acompanhar não apenas o desmatamento em escala geral, mas também as mudanças nas áreas que protegem os rios e contribuem para a conservação dos recursos hídricos brasileiros.

