Gastos com bets podem afetar trajetória acadêmica de cerca de 2 milhões de brasileiros
Estimativa do MEC combina pesquisa com potenciais ingressantes e dados sobre alunos matriculados, mas não representa casos comprovados de evasão causada exclusivamente por apostas.

Levantamentos do setor de ensino superior associam despesas com apostas online a decisões de matrícula, atraso de mensalidades e trancamento de cursos; estimativa reúne potenciais ingressantes e alunos já matriculados
Levantamentos recentes apontam que o dinheiro destinado às apostas online, conhecidas como bets, pode comprometer o ingresso e a permanência de cerca de 2 milhões de brasileiros no ensino superior privado. A estimativa, divulgada pelo Ministério da Educação, combina dados de uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em parceria com a Educa Insights, com informações sobre estudantes já matriculados e não representa uma contagem direta de 2 milhões de pessoas entrevistadas.
O principal indicador sobre quem pretende começar uma graduação é da pesquisa ABMES/Educa Insights. O levantamento estima que 986 mil potenciais ingressantes poderiam deixar de efetivar a matrícula em 2026 em razão do comprometimento da renda com apostas online. A projeção parte de um universo de quase 2,9 milhões de potenciais ingressantes na educação superior privada.
Entre aqueles que já estão matriculados, a mesma pesquisa identificou que 14% dos entrevistados afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets. Aplicado ao universo de mais de 8 milhões de matrículas da rede privada, esse percentual corresponde a uma ordem de grandeza superior a 1,1 milhão de estudantes. É dessa combinação que surge a estimativa próxima de 2 milhões.
Os números precisam ser interpretados como estimativas e associações, e não como prova de que as apostas sejam responsáveis isoladamente pela interrupção dos estudos.
A pesquisa da ABMES e da Educa Insights foi realizada entre 20 e 24 de março de 2025 com 2.317 jovens de 18 a 35 anos de todas as regiões e classes sociais, interessados em ingressar no ensino superior privado. O estudo identificou a relação entre o comprometimento financeiro com apostas e decisões sobre a graduação.
No levantamento, a parcela de alunos que relatou atraso de mensalidade ou trancamento por causa das bets chegou a 14%. A pesquisa também encontrou diferenças entre grupos de renda: entre estudantes das classes B1 e B2, o índice chegou a 17%.
O segundo indicador citado pelo governo vem do Instituto Semesp, que pesquisa a situação financeira das instituições privadas. Na edição de 2025, 19,1% das instituições que responderam à questão disseram ter identificado alguma relação entre inadimplência de estudantes e apostas ou jogos online. Desse grupo, 2,4% disseram que o impacto sobre o pagamento das mensalidades era muito significativo e 16,7% classificaram o efeito como pequeno.
Há, portanto, uma diferença entre os dois tipos de informação: a pesquisa ABMES/Educa Insights trata da percepção e do comportamento de estudantes e potenciais ingressantes, enquanto o levantamento do Semesp registra a percepção das próprias instituições de ensino.
O efeito das apostas pode aparecer antes mesmo de o estudante iniciar as aulas. Segundo a pesquisa da ABMES, uma parcela dos potenciais ingressantes considera que os recursos destinados às apostas comprometem sua capacidade de iniciar uma graduação.
Para 2026, a projeção de 986 mil pessoas em risco de não efetivar a matrícula foi calculada a partir desse comportamento declarado e do universo estimado de potenciais ingressantes. Não significa, portanto, que 986 mil estudantes tenham desistido efetivamente da faculdade por causa das bets. Trata-se de uma projeção de risco de não matrícula baseada nos dados da pesquisa.
A distinção é relevante porque dificuldades financeiras no acesso ao ensino superior têm múltiplas causas. Renda familiar, emprego, inflação, outras despesas e condições de financiamento também influenciam a decisão de iniciar ou manter um curso.
O próprio Ministério da Educação ressalta que as apostas não constituem a única explicação para problemas financeiros ou interrupção dos estudos. Os levantamentos apontam que os gastos com bets podem acrescentar uma pressão sobre um orçamento que já precisa cobrir mensalidades, transporte, alimentação, materiais e outras despesas.
O comprometimento da renda pode ter consequências adicionais para estudantes que dependem de mecanismos públicos de acesso e financiamento, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Uma bolsa ou um financiamento não elimina necessariamente todos os custos associados à graduação. Por isso, a redução da renda disponível pode afetar a capacidade do estudante de arcar com despesas complementares ou manter sua trajetória acadêmica.
O levantamento, entretanto, não permite concluir que as bets estejam provocando diretamente a evasão ou a inadimplência em todos esses casos. A evidência apresentada é de associação entre os gastos com apostas e dificuldades relatadas por estudantes ou identificadas pelas instituições.
A pesquisa sobre o impacto das apostas na educação superior não começou em 2026. A ABMES e a Educa Insights publicaram uma primeira edição do estudo em setembro de 2024 e uma segunda onda em 2025.
Na segunda edição, divulgada em junho de 2025, a ABMES informou que 52% dos entrevistados disseram apostar regularmente e que 80% destinavam até 5% de seus rendimentos às apostas online. O levantamento também registrou que uma parcela dos entrevistados relacionava os gastos com apostas ao adiamento do início da graduação.
Os dados mais recentes apresentados pelo governo colocam essa discussão em uma escala maior: não apenas como uma questão de comportamento individual, mas também como um possível fator adicional de pressão sobre o orçamento de estudantes e sobre a capacidade de pagamento das instituições privadas.
O que os números permitem afirmar
Os levantamentos sustentam três conclusões principais. A primeira é que há estudantes que relatam comprometer recursos destinados à educação com apostas online. A segunda é que instituições privadas também identificam alguma relação entre bets e inadimplência. A terceira é que, quando esses percentuais são aplicados aos universos estimados de potenciais ingressantes e matrículas, chega-se a uma ordem de grandeza próxima de 2 milhões de pessoas potencialmente afetadas.
O número, porém, deve ser lido como estimativa de impacto, e não como uma medição direta de 2 milhões de estudantes prejudicados exclusivamente pelas apostas.
Essa distinção é fundamental para interpretar o estudo sem transformar uma projeção estatística em um número de casos comprovados.





















