Pacto para governo de unidade se desintegra em Honduras
Um acordo para acabar com uma crise política que já dura quatro meses em Honduras foi rompido na sexta-feira, depois que os dois líderes rivais não conseguiram formar um gabinete de unidade para sair do impasse provocado pelo golpe de Estado de junho.
O presidente deposto Manuel Zelaya declarou o pacto morto apenas uma semana depois de tê-lo assinado, e pediu aos hondurenhos que boicotem as eleições presidenciais deste mês porque o líder de facto, Roberto Micheletti, formou um novo governo sem ele.
Os líderes rivais tinham concordado em formar um chamado gabinete de unidade e reconciliação até quinta-feira, mas não entraram em acordo sobre quem iria liderar o gabinete até que o Congresso decidisse se iria ou não reinstalar Zelaya.
"É absurdo o que eles estão fazendo, tentando zombar de todos nós, do povo que me elegeu e da comunidade internacional que me apoia. Decidimos não continuar esse teatro com o sr. Micheletti", disse Zelaya.
Antes, Zelaya se recusou a indicar qualquer membro do gabinete que seria formado e Micheletti disse que seguiria adiante sem as nomeações.
"Completamos o processo de formar um governo de unidade... ele representa o espectro mais amplo apesar do fato de o sr. Zelaya não ter enviado uma lista de representantes", disse Micheletti em um discurso televisionado para os hondurenhos.
Ministros do gabinete do governo de facto renunciaram para abrir caminho para um novo governo, que segundo Micheletti iria incluir nomes de várias facções políticas diferentes.
O empobrecido país, exportador de café e têxteis, foi isolado diplomaticamente e perdeu a ajuda internacional desde que Zelaya foi tirado da Presidência por soldados e enviado de pijama ao exílio no golpe de 28 de junho.
Zelaya voltou às escondidas para Honduras em setembro e está abrigado na embaixada brasileira na capital desde então.
A pior crise na América Central em 20 anos trouxe de volta memórias indesejáveis das décadas de regime militar, de abusos dos direitos humanos e de instabilidade política que atingiram o continente latino-americano durante a Guerra Fria.
Os Estados Unidos e a Organização dos Estados Americanos (OEA) pressionaram os dois lados para chegarem a um acordo para acabar com a crise, e celebraram o acordo da semana passada, mas o documento tinha contradições internas demais para ser bem-sucedido.
Zelaya insiste que as eleições marcadas para 29 de novembro não serão legítimas a menos que ele seja primeiro restaurado no cargo para terminar seu mandato até janeiro. Mas o acordo não garante sua restituição.
O acordo da semana passada deixou para o Congresso hondurenho a missão de votar pelo regresso de Zelaya à Presidência, mas os parlamentares não receberam um prazo para dar a sentença.
Assim que o acordo foi assinado, os EUA concordaram em reconhecer os resultados eleitorais mesmo se Zelaya não fosse reinstalado, pondo de lado as exigências anteriores de ele voltar ao poder.
Agora os EUA e a OEA enfrentam a possibilidade de Micheletti, um líder que condenam e se recusam a reconhecer, entregar a Presidência ao novo presidente em janeiro.
Zelaya foi expulso do país pelos militares depois que um decreto secreto da Suprema Corte disse que ele tinha violado a Constituição ao tentar fazer um referendo para mudar o limite de números de mandatos da Presidência.
O Congresso instalou rapidamente Micheletti como líder interino, mas seu governo não conseguiu o reconhecimento externo e grupos de defesa dos direitos humanos documentaram abusos, incluindo mortes e a suspensão das liberdades civis.
Honduras agora está polarizada entre os ardentes simpatizantes de Zelaya e os hondurenhos preocupados que ele possa levar seu país para mais perto do presidente Hugo Chávez, da Venezuela.
Uma granada explodiu em um prédio de escritórios no centro de Tegucigalpa depois do discurso de Micheletti, disse a polícia, mas não havia sinais imediatos de tumultos.
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