PORTFÓLIO-Mercado critica a atuação da CVM
A abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) da VisaNet será lembrada por dois grandes fatos relevantes. O primeiro é a amplitude da captação de recursos. O segundo foi a grande turbulência do processo de venda das ações, marcado por uma inesperada e surpreendente atuação da Comissão de Valores Mobiliários.
O lançamento de ações, que movimentou 8,4 bilhões de reais, torna essa abertura de capital a maior da história, superando os lançamentos bilionários da OGX, da Bovespa e da BM&F. Não por acaso, a disputa pelos papéis foi acirrada.
O fato de as ações da Redecard, concorrente da VisaNet, terem subido 24 por cento no primeiro dia de negócios também ajudou a atrair uma multidão de investidores.
As vantagens da VisaNet são claras para o mercado. É uma empresa de grandes proporções, que domina cerca de metade das transações financeiras eletrônicas brasileiras. Também é um dos melhores exemplos de ação anticíclica, pois sua receita é crescente (as transações com cartões substituem cada vez mais os cheques e o dinheiro) e relativamente pouco afetada pelos vagares da economia.
Na manhã da última quarta-feira, poucas horas antes do encerramento do período de reservas de ações, porém, a CVM descredenciou 19 corretoras que estavam intermediando a venda de ações da VisaNet para investidores. O motivo para o descredenciamento foi, alegadamente, o fato de as corretoras estarem se excedendo na divulgação de informações sobre a operação, desrespeitando o chamado período de silêncio.
A decisão da CVM provocou uma das manhãs mais tensas no mercado de capitais desde os piores momentos da crise do subprime. Enquanto investidores interessados nas ações tentavam freneticamente transferir suas ordens das corretoras excluídas para outras que permaneciam no processo, profissionais do mercado procuravam garantir que seus clientes recebessem as ações reservadas.
Foram horas de trocas de e-mails, envio de papéis via fax e aumento no tráfego de mensageiros nas principais avenidas de São Paulo. A comoção foi tanta que obrigou à postergação da data-limite para as reservas de ações em um dia.
Com isso, o resultado final do IPO, em que houve um rateio de 38,35 por cento no pedidos, foi considerado aquém do esperado. Mesmo obrigando os investidores a ficar com menos ações do que haviam encomendado, a abertura de capital poderia ter atendido mais interessados em participar do capital da VisaNet.
Essa atuação da CVM levanta dois questionamentos. O primeiro é se ela cumpriu bem o seu papel de ser a autarquia responsável pelo funcionamento do mercado de capitais. O segundo é se as regras do período de silêncio, criadas para defender os interesses dos investidores, funcionam a contento ou precisam ser revistas.
O papel de qualquer autarquia responsável pela regulamentação do mercado financeiro é não apenas estabelecer normas e garantir o cumprimento delas, mas também orientar o mercado --essa entidade composta por milhões de investidores individuais e algumas dezenas de milhares de administradores de recursos-- em procedimentos e padrões.
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